Uma variante perigosa do haicai é a lúdica, como a criação de Bashô que reproduzimos adiante. Matsushima é um nome de lugar, modulado no poema para produzir efeitos de recordação e saudade:
Matsushima ya
aa Matsushima ya
Matsushima ya
A perfeição da forma até prejudica a "alma" essencial do poema, e os bons haicaístas ocidentais sofrem muitas vezes desse mal. Mas também no Ocidente encontramos criações admiráveis, poemas muito próximos da concepção zen, em que a brevidade é apenas um método, e o virtuosismo da expressão compacta não perturba a limpidez da intenção. É o caso de muitos haiku do nosso Pedro Xisto Pereira de Carvalho, já falecido, cuja obra ficou dispersa em jornais, revistas, opúsculos, edições fora do comércio. A maior coletânea desses haicais é Caminho, uma edição do autor de excepcional qualidade gráfica (Rio de Janeiro, Berlendis & Vertcchia , 1979, 214 págs).
Terminamos alegremente esta introdução ao mundo do haiku com alguns dos poemas de Pedro Xisto:
Céu de nuvens brancas
tigela antiga de arroz
cãs: reverências
Praticar o haiku é colher fragmentos do tempo, procedimento ligado às raízes budistas da cultura
névoas? neva ainda?
deste céu de cerejeiras
pétalas partindo
bonzos: ronda ao longe
gongos: rimbombos redondos
montam pelo monte
Em horto de monges
Crisálida espera as asas
Brisa move as frondes.
Sérgio Bath é diplomata e residiu no Japáo. É autor, entre outros livros, de Japão Ontem e Hoje (1993) e Sintoísmo: o Caminho dos Deuses (1998), publicados pela Ática
O texto ( 01 a 06) foi extraído do jornal "Jornal da Tarde"
CADERNO DE SÁBADO - Sábado, 3 de outubro de 1998
Jornal da Tarde pertencia ao jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO "
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