Por que "sílabas" entre aspas? Não se trata propriamente de sílabas, mas do que poderíamos chamar de " unidades de duração" - convém não esquecer que haicai clássico é escrito em japonês. Assim, o "n" que não precede uma vogal pode corresponder uma unidade enquanto uma vogal longa pode ser contada em dobro. Para exemplificar: Onjoji tem cinco unidades de som: o-n-jo-o-ji, e Nippon tem quatro: Ni-p-po-n. Portanto, o limite que a língua impõe à expressão é ainda maior do que no Ocidente se suspeita. O haicai é sobretudo um exercício de contenção verbal, de densidade poética.
O que não deixa de ser curioso, porque o gênio da língua japonesa é marcado pela prolixidade. Citamos Donald Keene: "O japonês é uma lín-
O limite que a língua no Japão impõe à expressão é maior do que se supõe no Ocidente
gua de frases intermináveis - por vezes literalmente intermináveis, deixadas incompletas depois de vigésima ou quadragésima volta, como se o autor se desesperasse de chegar ao fim". Mas a linguagem do haicai é artificialmente contrata e sucinta.
Naturalmente toda regra tem excessões, e o número dessas unidades de duração nem sempre é 17. Uma excessão famosa é um haiku de Teishitsu (1609-73), com 18 unidades (6-7-5):
Kore wa kore wa
to bakari hana no
Yoshinoyama
Quanto à referência à natureza e à estação do ano pode estar implícita, e nem sempre é fácil de perceber. Os haicaístas ( se o leitor me permite o neologismo) mostram às vezes um prazer perverso em oculá-la. Se encontramos a palavra yuki ( "neve"), saberemos que é tempo de inverno, mas num poema como este, de Bashô, só quem conhece o costume do velho Japão de visitar os cemitérios no verão pode saber de que época se trata:
Ie wa mina
tsue ni shigara no
haka mairi
Ou seja: "cabelos encanecidos, / bengala na mão, os membros da família / visitam o cemitério."
Quanto à regra da singularidade e do tempo presente, ela se aplica ao mundo mental do poeta, e não necessariamente ao fato ou circunstância que lhe serviu de estímulo criador. Há um excelente exemplo de Onitsura, citado por Harold Henderson. Poderíamos traduzi-lo assim:
"Vemos o botão / depois a flor que se dispersa / e então..." Dir-se-á, apologeticamente, que não há aqui generalização nem fuga ao presente, já que o foco é a reação subjetiva do poeta, no momento exato em que a brisa dispersa as pétalas da cerejeira.
Originalmente, o haiku correspondia ao destaque dos três primeiros versos do tanka (um formato mais antigo) de 31 sílabas (5-7-5-7-7), cadência que se ajusta com perfeição à língua japonesa. Aliás, tanto o haiku como o tanka podem ocorrer em série de poemas encadeados, dos quais o primeiro se diria um hokku, às vezes de diferentes autores: é o chamado renga.
Em 1488, Sogi e dois discípulos, Shokaku e Socho, escreveram uma dessas séries, que começa assim (na tradução inglesa de Donald Keene):
"Snow yet remainting / The mountain slopes are hazy / It is evening."
(Sogi) "The water distantly flows / By the plum-scented village".
continua na próxima postagem....
O que não deixa de ser curioso, porque o gênio da língua japonesa é marcado pela prolixidade. Citamos Donald Keene: "O japonês é uma lín-
O limite que a língua no Japão impõe à expressão é maior do que se supõe no Ocidente
gua de frases intermináveis - por vezes literalmente intermináveis, deixadas incompletas depois de vigésima ou quadragésima volta, como se o autor se desesperasse de chegar ao fim". Mas a linguagem do haicai é artificialmente contrata e sucinta.
Naturalmente toda regra tem excessões, e o número dessas unidades de duração nem sempre é 17. Uma excessão famosa é um haiku de Teishitsu (1609-73), com 18 unidades (6-7-5):
Kore wa kore wa
to bakari hana no
Yoshinoyama
Quanto à referência à natureza e à estação do ano pode estar implícita, e nem sempre é fácil de perceber. Os haicaístas ( se o leitor me permite o neologismo) mostram às vezes um prazer perverso em oculá-la. Se encontramos a palavra yuki ( "neve"), saberemos que é tempo de inverno, mas num poema como este, de Bashô, só quem conhece o costume do velho Japão de visitar os cemitérios no verão pode saber de que época se trata:
Ie wa mina
tsue ni shigara no
haka mairi
Ou seja: "cabelos encanecidos, / bengala na mão, os membros da família / visitam o cemitério."
Quanto à regra da singularidade e do tempo presente, ela se aplica ao mundo mental do poeta, e não necessariamente ao fato ou circunstância que lhe serviu de estímulo criador. Há um excelente exemplo de Onitsura, citado por Harold Henderson. Poderíamos traduzi-lo assim:
"Vemos o botão / depois a flor que se dispersa / e então..." Dir-se-á, apologeticamente, que não há aqui generalização nem fuga ao presente, já que o foco é a reação subjetiva do poeta, no momento exato em que a brisa dispersa as pétalas da cerejeira.
Originalmente, o haiku correspondia ao destaque dos três primeiros versos do tanka (um formato mais antigo) de 31 sílabas (5-7-5-7-7), cadência que se ajusta com perfeição à língua japonesa. Aliás, tanto o haiku como o tanka podem ocorrer em série de poemas encadeados, dos quais o primeiro se diria um hokku, às vezes de diferentes autores: é o chamado renga.
Em 1488, Sogi e dois discípulos, Shokaku e Socho, escreveram uma dessas séries, que começa assim (na tradução inglesa de Donald Keene):
"Snow yet remainting / The mountain slopes are hazy / It is evening."
(Sogi) "The water distantly flows / By the plum-scented village".
continua na próxima postagem....
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