sábado, 8 de novembro de 2014

HAIKAI 06

     continuação do 05

     Uma variante perigosa do haicai é a lúdica, como a criação de Bashô que reproduzimos adiante. Matsushima é um nome de lugar, modulado no poema para produzir efeitos de recordação e saudade:
 
      Matsushima ya
      aa Matsushima ya
      Matsushima ya
 
      A perfeição da forma até prejudica  a "alma" essencial do poema, e os bons haicaístas ocidentais sofrem muitas vezes desse mal. Mas também no Ocidente encontramos criações admiráveis, poemas muito próximos da concepção zen, em que a brevidade é apenas um método, e o virtuosismo da expressão compacta não perturba a limpidez da intenção. É o caso de muitos haiku do nosso Pedro Xisto Pereira de Carvalho, já falecido, cuja obra ficou dispersa em jornais, revistas, opúsculos, edições fora do comércio. A maior coletânea desses haicais é Caminho, uma edição do autor de excepcional  qualidade gráfica (Rio de Janeiro, Berlendis & Vertcchia , 1979, 214 págs).
        Terminamos alegremente esta introdução ao mundo do haiku com alguns dos poemas de Pedro Xisto:
 
          Céu de nuvens brancas
          tigela antiga de arroz
          cãs: reverências
 
          Praticar o haiku é colher fragmentos do tempo, procedimento ligado às raízes budistas  da cultura
 
          névoas? neva ainda?
          deste céu de cerejeiras
          pétalas partindo
 
         bonzos: ronda ao longe
         gongos: rimbombos redondos
         montam pelo monte
 
        Em horto de monges
        Crisálida espera as asas
        Brisa move as frondes.
 
        Sérgio Bath é diplomata e residiu no Japáo. É autor, entre outros livros, de Japão Ontem e Hoje (1993) e Sintoísmo: o Caminho dos Deuses (1998), publicados pela Ática
 
O texto ( 01 a 06) foi extraído do jornal "Jornal da Tarde"
CADERNO DE SÁBADO - Sábado, 3 de outubro de 1998
Jornal da Tarde pertencia ao jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO "

HAIKAI 05

continuação de 04...

    Outras vezes repetiu-se a estrutura silábica, amoldando-se a criação ao estilo do poeta e às inclinações peculiares da língua utilizada. Como o nosso Guilherme de Almeida, que se serviu de rima, com bom resultado:

     Uma folha morta.
     Um galho no céu grisalho.
     Fecho a minha porta.

     Um gosto de amora
     Comida com sol. A vida
     Chamava-se "Agora".

     Esvoaça a libélula.
     Esponja verdade. Uma concha.
     O lago é uma pérola.

     Incidentalmente, foi Guilherme de Almeida, amante do haicai, que assim o definiu:

     Lava, escorre, agita
     A areia. E enfim, na bateia,
     Fica uma pepita.

    O perigo de algumas dessas adaptações ocidentais está da perda de

Os "haicaístas" mostram um prazer perverso de ocultar a referência à natureza

vitalidade, para a qual nos alerta Haroldo de Campos; na transformação do haicai em simples adorno, naquilo que Ezra Pound chamaria ironicamente de "rice powder poetry" - poesia pó de arroz" -.
     Os quatro grandes mestres do haiku clássico foram os já citados Bashô e Issa, Yosa Buson (1716-1784) e Masaoka Shioki (1867 - 1902). No Japão há incontáveis praticantes da poesia tradicional, especialmente o haicai. São japoneses e estrangeiros, e em 1961 um destes, o diplomata brasileiro Galba Samuel Santos (1917-1968) ganhou um prêmio da Casa Imperial, com  um tenka (Nai tsunami/ gen baku no shiren/ fumiko e te/  fuso no kunitsuchi/ saka e yuku miyu) cuja tradução prosaica é a seguinte: "Terremotos, maremotos, a bomba atômica: todas essas provações assolando o país. Nem por isso desapareceram a glória e a energia espiritual da Terra do Sol Nascente".
                                                                          continua na próxima postagem.....

 

HAIKAI 04

continuação de 03....
 
A língua japonesa é marcada pela prolixidade.
Mas a linguagem do haicai é sucinta

(Shokatu) "In de river breeze / A cluster of willows / Spring is appearing" (Socho) " The sound of  a boat being poled / Clear in te clear mornig light" (Sogi), etc.
     Se à primeira vista o que chama a atenção no haicai são suas características externas, em particular o poder de síntese e a estrutura compacta, é uma característica interna que o identifica com maior precisão: sua essência é a percepção instantânea, a revelação sumária em que as idéias, o sentido e também a música das palavras - sem esquecer a interação ideograma-pronúncia, própria da língua japonesa - que canalizam uma intuição do mundo.
      Assim, o  propósito do verdadeiro haicai é o conhecimento momentâneo da realidade. Já se disse que praticar o haiku  é colher spots of time, fragmentos de tempo,um procedimento vinculado às raízes budistas da tradição japonesa. O haicai se aproxima assim do satori dos discípulos zen.
       A palavra satori denota o ato de despertar (do sono, de um torpor); satoru, a forma verbal, significa "acordar". Segundo Daisetz Suzuki, o conhecido divulgador do budismo, trata-se do processo "que ilumina instantaneamente o campo da consciência, como um relâmpago", estabelecendo um contato cognitivo com a realidade.
       O satori  é incomunicável, mas pode ser provocado, por exemplo pelo, koan: um paradoxo propõe problema aparentemente insolúvel à luz da razão, e desperta assim nossa faculdade intuitiva. Ora, o haiku também nos pode despertar para um aspecto dessa realidade fugidia que a literatura japonesa chama de "mundo de orvalho" (fantasma da madrugada, que  desaparece com a luz do dia).
        O poder sugestivo do haicai, decorrente do seu caráter incompleto-ele é muitas vezes uma mera insinuação que se completa e potencializa no espírito de quem ouve e lê - tem atraído muitos poetas ocidentais, desde os chamados "imagistas". Alguns, como Amy Lowell (1874-1925), tentaram imitá-lo com toques de "orientalismo convencional":

          Brighter than the fireflies
          upon the Uji river
          are your words in the dark,
          Beloved
                                                   continua na próxima postagem....
 
      

HAIKAI 03....

   continuação de 02....

     Por que "sílabas" entre aspas? Não se trata propriamente de sílabas, mas do que poderíamos  chamar  de " unidades de duração" - convém não esquecer que haicai clássico é escrito em japonês. Assim, o "n" que não precede uma vogal pode corresponder uma unidade enquanto uma vogal longa pode ser contada em dobro. Para exemplificar: Onjoji tem cinco unidades de som: o-n-jo-o-ji, e Nippon tem quatro: Ni-p-po-n. Portanto, o limite que a língua impõe à expressão é ainda maior do que no Ocidente se suspeita. O haicai é sobretudo um exercício de contenção verbal, de densidade poética.
       O que não deixa de ser curioso, porque o gênio da língua japonesa é marcado pela prolixidade. Citamos Donald Keene: "O japonês é uma lín-

         O limite que a língua no Japão impõe à expressão é maior do que se supõe no Ocidente

gua de frases intermináveis - por vezes literalmente intermináveis, deixadas incompletas depois de vigésima ou quadragésima volta, como se o autor se desesperasse de chegar ao fim". Mas a linguagem do haicai é artificialmente contrata e sucinta.
         Naturalmente toda regra tem excessões, e o número dessas unidades de duração nem sempre é 17. Uma excessão famosa é um haiku de Teishitsu (1609-73), com 18 unidades (6-7-5):

          Kore wa kore wa
          to bakari hana no
          Yoshinoyama

          Quanto à referência à natureza e à estação do ano pode estar implícita, e nem sempre é fácil  de perceber. Os haicaístas ( se o leitor me permite o neologismo) mostram às vezes um prazer perverso em oculá-la. Se encontramos a palavra yuki ( "neve"), saberemos que é tempo de inverno, mas num poema como este, de Bashô, só quem conhece o costume do velho Japão de visitar os cemitérios no verão pode saber de que época se trata:

         Ie wa mina
         tsue ni shigara no
        haka mairi

        Ou seja: "cabelos encanecidos, / bengala na mão, os membros da família / visitam o cemitério."
         Quanto à regra da singularidade e do tempo presente, ela se aplica ao mundo mental do poeta, e não necessariamente ao fato ou circunstância que lhe serviu de estímulo criador. Há um excelente exemplo de Onitsura, citado por Harold Henderson. Poderíamos traduzi-lo assim:
"Vemos o botão / depois a flor que se dispersa / e então..." Dir-se-á, apologeticamente, que não há aqui generalização nem fuga ao presente, já que o foco é a reação subjetiva do poeta, no momento exato em que a brisa dispersa as pétalas da cerejeira.
          Originalmente, o haiku correspondia ao destaque dos três primeiros versos do tanka (um formato mais antigo) de 31 sílabas (5-7-5-7-7), cadência que se ajusta com perfeição à língua japonesa. Aliás, tanto o haiku como o tanka podem ocorrer em série de poemas encadeados, dos quais o primeiro se diria um hokku,  às vezes de diferentes autores: é o chamado renga.
           Em 1488, Sogi e dois discípulos, Shokaku e Socho, escreveram uma dessas séries, que começa assim (na tradução inglesa de Donald Keene):
"Snow yet remainting /  The mountain slopes are hazy / It is evening."
(Sogi) "The water distantly flows / By the plum-scented village".
                                                                                      continua na próxima postagem....

       

domingo, 2 de novembro de 2014

H A I C A I 02

continuação de haicai 01
                                       A SINGELA POESIA
                                     SINTÉTICA DO JAPÃO

Um exercício de contenção verbal, de densidade poética, o haicai (haikai, também conhecido como haikuou hokku), visa a um conhecimento momentâneo da realidade. Pode ser identificado por suas características de ordem externa, como a expressão sintética e a referência à natureza e à estação do ano. Sua essência é a percepção instantânea, em que as ideias, o sentido e a música das palavras cria uma intuição do mundo.
Por Sérgio Bath

    Que é exatamente o haiku, que conhecemos como haicai? Os termos haiku, hokku e haikai denotam um gênero da poesia japonesa que foi adotado, muitas vezes canhestramente, por outras literatura, e se difundiu por todo o mundo, assumindo às vezes formas surpreendentes. Se pesquisar na Internet o leitor curioso se surpreenderá com o número de sites sobre o tema.
     Mais estritamentehaikai é o gênero poético haiku o poema pertencente a esse gênero e hokku o poema que abre uma série intercalada (ver adiante). Na prática, porém, mesmo no Japão os três termos são usados sem maior precisão.
      Ilustramos, desde logo, com o mais famoso haicai, de Matsuo Bashô (1644-1694), paradigma da categoria:
     
       fu-ru-ke-ya
      ka-wa-zu-to-bi-ko-um
      mi-zu-no-o-to
     
     A tradução poderia ser: "O velho tanque/uma rã mergulha/ruído de água que se agita. "Ou ainda, conforme Haroldo de Campos, "o velho tanque/rã: saltomba/rumor de água".
      Não poderia faltar também o meu haiku predileto, de Kobayashi Issa (1762-1826):
     
      tsuyu no yo wa
      tsuyu no yo nagara
      surinagara,

      O HAICAI DÁ ÊNFASE A EVENTO PRESENTE E PARTICULAR, EVITANDO O PASSADO E GENERALIZAÇÃO

        que poderíamos traduzir assim: "este mundo de orvalho/ é só orvalho/ no entanto no entanto....."
         O haicai clássico pode ser identificado, antes de tudo, por essas características externas: sua natureza sintética, mediante as referências tácitas que obriga o total de 17 "sílabas", dispostas em 3 versos, com 5, 7 e 5 "sílabas"; a menção à natureza, quase sempre a uma estação do ano; a ênfase dada a um evento presente e particular, evitando a generalização e o passado.
                                                              continua na próxima postagem.....

Texto extraído de Jornal da Tarde "Caderno de Sábado".....
Data: Sábado, 03 de outubro de 1998.
Jornal da Tarde pertencia ao: " O ESTADO DE SÃO PAULO"
                                                                                              



         

HAICAI 01



Uma folha morta.
Um galho no céu grisalho.
Fecho minha porta.


Um gosto de  amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se "Agora"


Esvoaçava a libélula.
Esponja verdade. Uma concha.
O lago é uma pérola.

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......O poder sugestivo do haicai, decorrente do seu caráter incompleto - ele é muitas vezes uma mera insinuação que se completa e potencializa no espírito de quem ouve e lê - tem atraído muitos poetas ocidentais, desde os chamados "imagistas"....

Extraído do CADERNO DE SÁBADO
Jornal da Tarde de: Sábado, 03 de outubro de 1998.
Jornal da Tarde pertencia ao " O ESTADO DE SÃO PAULO "
                                                                        continua na próxima postagem.....
 



sábado, 1 de novembro de 2014

Eleições 2014


                                                      

NO DIA 26 DE OUTUBRO DE
2014
ESCOLHEMOS
O NOSSO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
QUE FICARÁ NO GOVERNO
NOS PRÓXIMOS 04 ANOS......

O POVO FEZ A SUA ESCOLHA: 
-OPTOU CONTINUIDADE-

FOI REELEITA:
-DILMA ROUSSEFF-

PROVAVELMENTE
NO EMBATE POLÍTICO
ENTRE CANDIDATOS
DEVE TER FICADO
ALGUMAS CICATRIZES
       -ACREDITO-

ESPEREMOS QUE
AS FARPAS TROCADAS
AO LONGO DA DISPUTA
ELEITORAL
NÃO TRAGAM
INCONSEQUÊNCIAS
À NAÇÃO.......

VAMOS AGUARDAR......

                                                               yosinoli
                                                               outubro/2014

OBSERVAÇÃO: Esperamos de todos os políticos eleitos e  reeleitos: seriedade e honestidade em seus mandatos.....