Além disso o problema da língua não era apresentado de maneira impositiva e uniforme, mas por etapas e em vários níveis. Macunaíma e Amar Verbo Intransitivo, por exemplo, lançados quase no mesmo tempo devido a dificuldades editoriais, eram experiências complementares que deviam ser lidas como um díptico. Mas a presença muito forte e mesmo avassaladora do primeiro livro acabou eclipsando completamente a mistura de teoria e psicologismo, as inovações requintadas de técnica narrativa, - enfim "o humorismo comentador" do segundo livro, - como o definia muito bem o autor. Quanto às experiência de linguagem, convém lembrar que era a primeira vez que se fazia sair "da pena direta do romancista e não da boca dos personagens (...) erros diários de conversação, idiotismo brasileiros, pronomes oblíquos começando a frase. Não por maluquice e para divertir o leitor, mas para forçar a sistematização da nossa fala".
O desentendimento entre os amigos, como era de se esperar prosseguia diante novo conceito de poesia manifestado na "Louvação da Tarde". Excentuando-se Manuel Bandeira, que logo aderiu àquela fatura forte em que o verso livre vinha medido como num poema parnasiano - ("Que ordem viril eu botei na minha sensibilidade inquieta!" exclamava o autor, convicto do próprio acerto)- excetuando-se Manuel, a incompreensão foi geral. Acostumados ao brilho exterior, à pândega, aos efeitos dos poemas nacionalistas - "Carnaval Carioca", "Noturno de Belo Horizonte", " O poeta come amendoim" - os modernistas não se entregam ao lirismo calmo e profundo, à "ardência como que escondida" do "poetinha menor", - que é como Mário ironicamente se autodefine nessa nova fase.
continua na próxima postagem.....
Texto extraído de Caderno de Sábado
"JORNAL DA TARDE"
Data: Sábado - 6-1-96
Jornal da Tarde
pertencia ao jornal
"O ESTADO DE SÃO PAULO"
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