sexta-feira, 20 de maio de 2016

MÁRIO DE ANDRADE E A MÚSICA (05)

                     continuação.....
    
        Agora é possível focalizá-lo - como faz a primeira fotografia - no espaço acanhado do ganha-pão, exercendo disciplinadamente o seu ofício. É um jovem professor, tímido, no início da carreira, que, por excesso de escrúpulo e incapacidade de improvisação, habituou-se a redigir as aulas, uma por uma. Não sabemos como eram as lições do Conservatório, mas as do curso particular que a aluna Carmem Boreli copiou com caligrafia impecável, repetem com fidelidade a parte da Estética Musical que ele deixou redigida. É provável que se trate do mesmo texto, mas isso não indica que o considerasse pronto para a publicação. Em 1925 comunica a Manoel Bandeira que o livro vai indo rapidamente e os quatro capítulos iniciais seguirão logo para o amigo opinar. O conjunto lhe parece interessante, pois as lições , apesar de vinculadas às atribuições didáticas, acabaram revelando "certas vistas novas ou pelo menos renovadas que lhe dão caráter curioso".
         Premido pelas tarefas didáticas e pela variedade dos interesses, está tomado de "verdadeira fúria de saber". Não tem arte que não ame e cujos problemas não o preocupem. Para suprir as deficiências de uma formação autodidática, estuda ao mesmo tempo muita psicologia, estética, filologia, línguas, filosofia, sociologia, etc. etc. E ainda está absorvendo a informação recente da cultura alemã, o encontro perturbador com a psicanálise. É conveniente abrir um parêntese para que se entenda melhor este período difícil de ruptura e de reformulação dos valores, em que o nacionalismo será uma das pedras de toque.
        A crise do nacionalismo - se é que possa chama-la assim - vem se arrastando há algum tempo e no momento da publicação de Macunaíma já atingira em cheio o nosso autor, como se pode constatar pela carta de 28 de fevereiro de 1928, escrita por Carlos Drummond de Andrade:
                                   continua na próxima postagem.......
 
Texto extraído de CADERNO DE SÁBADO
JORNAL DA TARDE
Data: Sábado - 6-1-96
Jornal da Tarde
Pertencia ao jornal "O ESTADO DE SÃO PAULO"
 

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