*Por Philippe Willemart
O lançamento do filme de Claude Chabrol e de uma nova tradução do livro que consagrou Flaubert, em 1856, é uma ocasião propícia para rever a posição crítica do autor no clima literário da época e desfazer-se de alguns clichês que cercam sua primeira heroína. O bovarismo enraizado em nossa cultura, tornou-se referência para caracterizar um comportamento feminino que se resume em "fugir no sonho da realidade da vida". A ideia de que Flaubert era mentor do Realismo continua percorrendo os manuais de história literária. No entanto, uma leitura atenta do texto e da correspondência entre o escritor e Louise Colet desfaz em parte os dois clichês. Gustave Flaubert lutou toda sua vida contra a estupidez e a burrice. O Dicionário das Ideias Feitas que relata as tolices que circulavam na língua francesa, revela, de fato um saber que guiava a época na sua vida cotidiana. Nesse sentido, Madame Bovary inicia oficialmente essa luta. O subtítulo, Costumes de Província, ilustra a vontade de descrever este estilo de vida transmitido através de todas as personagens que constituem uma microssociedade do século XIX, movida pela tolice, à qual se opõe Emma. Entretanto, o desejo "realista" de descrever a província não se averigua nas entrelinhas do texto. As intervenções do narrador indicam um contraponto satírico, para não dizer negativo, em relação às personagens. As roupas dos convidados no casamento de Emma são descritas minunciosamente, mas entrecortadas de comparações e comentários: "boas casacas, rodeadas de todas as considerações de uma família/.../ sobrecasacas /.../ de bolsos largos como sacos/.../ tendo nas costas dois botões aproximados como dois olhos e cujas abas pareciam ter sido cortadas diretamente, com um só golpe, pelo machado de um carpinteiro".
continua na próxima postagem.....
Texto extraído de: CADERNO DE SÁBADO
JORNAL DA TARDE
Data: Sábado - 22/5/93
JORNAL DA TARDE pertencia ao "O ESTADO DE SÃO PAULO"
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