PAIXÃO E ÓDIO
A famosa comparação da conversa de Charles "plate comme un trottoir", sem relevo como uma calçada" confirma o que Flaubert dizia 1852: "Acreditam que estou apaixonado pelo real enquanto eu o odeio: porque é o ódio do realismo que cultivei nesse romance". A numerologia exata, mas irreal: 46 dias para a cura, 75 francos para o tratamento de Rouault, 19 minutos para esperar o "sim" de Emma, 43 pessoas no casamento, etc., sublinha essa recusa do realismo e leva o leitor a se perguntar: o que queria Flaubert? Emma sugere uma resposta. Perseguida pels lembrança do baile de Vaubyessard, olhava a charuteira de seda verde que teria sido oferecida ao Visconde por uma amante, a via nitidamente "entre vasos de flores e os relógios Pompadour" e ajudada pelo mapa de Paris, distinguia "o mundo dos embaixadores, a sociedade das duquesas e a multidão dos homens de letras e das atrizes...".
REALIDADE VIRTUAL
Em outras palavras, Emma não diferenciava a realidade do sonho ou do devaneio. Não havia separação nítida entre os dois mundos. Como o psicótico, parecia confundir a realidade com a alucinação. Dentro da ficção, o luxo dos detalhes comprovava a indistinção entre os registros da realidade ou do sonho. Estamos longe do realismo e próximos da realidade virtual flaubertiana. O narrador esquece a história "realista" e deixa-se levar por detalhes gratuitos, insignificantes, imprevisíveis e arbitrários que traduzem uma opção "não romanesca", pouco normativa e quase inadaptável ao cinema em sua totalidade. O acessório toma conta da beleza da escritura e ilustra esse projeto de não dizer nada, que "inaugura a experiência literária moderna". Flaubert não representa o realismo prosaico e rude de Champfeury ou de Courbet, mas a modernidade, se entendermos por este termo a anulação da história em proveito da escritura.
continua na próxima postagem......
Extraído de "Caderno de Sábado"
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 22/5/93
Jornal da Tarde pertencia ao "O ESTADO DE SÃO PAULO"
Em outras palavras, Emma não diferenciava a realidade do sonho ou do devaneio. Não havia separação nítida entre os dois mundos. Como o psicótico, parecia confundir a realidade com a alucinação. Dentro da ficção, o luxo dos detalhes comprovava a indistinção entre os registros da realidade ou do sonho. Estamos longe do realismo e próximos da realidade virtual flaubertiana. O narrador esquece a história "realista" e deixa-se levar por detalhes gratuitos, insignificantes, imprevisíveis e arbitrários que traduzem uma opção "não romanesca", pouco normativa e quase inadaptável ao cinema em sua totalidade. O acessório toma conta da beleza da escritura e ilustra esse projeto de não dizer nada, que "inaugura a experiência literária moderna". Flaubert não representa o realismo prosaico e rude de Champfeury ou de Courbet, mas a modernidade, se entendermos por este termo a anulação da história em proveito da escritura.
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Data: Sábado - 22/5/93
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