sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A PRIMEIRA HISTÉRICA DA LITERATURA (03)

      continuação......
     
      Em 1992, Bourdieu lançou um livro fundamental para a compreensão da arte flaubertiana que fortalece, em parte, a interpretação de Genette. Sem filiar-se religiosamente a nenhum movimento, Flaubert se insere entre partidários da arte social e da arte pela arte contra a arte burguesa ou comercial. Como Frédéric da Educação Sentimental, "Flaubert não consegue levar o real a sério". A vida sendo ficção, todas as manifestações da vida são fictícias e dependem de acordos para se tornarem reais. Com a escritura de Madame Bovary, Flaubert renova a pergunta filosófica fundamental sobre a realidade objetiva ou idealista e encara tudo como ficção com as devidas consequências para sua heroína.
 
                                                            ILUSÃO COLETIVA
        Confusão de registros na personagem, realismo excessivo do narrador ou opção estética do escritor? Diria que a mesma lógica explica os três níveis de resolução. Entretanto na ficção, o escritor elabora um mundo sui generis em que as categorias de realidade, e não realidade não funcionam; essa distinção faz parte da mesma ilusão coletiva de que o autor como tal não compartilha. Se "A primeira qualidade da Arte e seu alvo, é a ilusão" (9/1853), entendemos a constatação anterior de Flaubert "Terei feito o real escrito"(8/1853). O único medidor do que é real ou não, é o próprio autor. As observações de Genette, embora excelentes, partem da ilusão coletiva da verossimilhança e misturam ficção e realidade. A leitura sociológica de Bourdieu talvez seja mais correta porque adota o ponto de vista de Faubert através das personagens Frédéric e Emma. Neste quadro ficcional de Madame Bovary, Emma torna-se portanto, a única personagem capaz de quebrar as fronteiras. Vive em um mundo já construído semelhante ao mundo real do século XIX, com suas divisões sociais, sua pedagogia, seus costumes, seus meios de locomoção, suas ideias feitas  e suas esperanças.
                                 continua na próxima postagem.....

Extraído de "Caderno de Sábado"
Jornal da Tarde
Data: - Sábado - 22/5/93
Jornal da Tarde pertencia ao jornal: "O ESTADO DE SÃO PAULO"



 

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