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Em uma das fábulas, um
macaquinho adverte:
"Qualquer um que tenha
miolos cuida apenas de seus
próprios assuntos"
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Conquistados só por seu valor,
seus feitos são bem conhecidos.
A soberania sobre as feras é dele.
A carne de animais com presas que andam
lentos e majestosos,
Goles de filetes de água nos sulcos é o que
ele prefere,
mas se seu prato favorito não surge em seu
caminho,
mesmo assim você nunca pegará um leão
que esteja comendo feno.
E em seguida surgem os chacais que, ao fim, perturbarão a amizade entre o leão Fulvo e o touro Vivaz:
Havia dois chacais no cortejo de Fulvo, um chamado Prudente e outro chamado Manhoso, filhos de ministros. Estavam sem emprego e isso é que os levou a se consultarem um ao outro ansiosamente. Foi Manhoso que primeiro mencionou o assunto, dizendo: "Prudente, meu bom amigo, você também acaba de ter visto nosso senhor, Fulvo, vindo por esse caminho para beber água? Por que ele está parado ali, parecendo tão melancólico?"
E Prudente respondeu: "Sim, eu vi, mas que é que tem? Não é da nossa conta, é? Ou você nunca ouviu o ditado:
Aquele que enfia o seu nariz onde não é da sua conta.
certamente encontra o seu fim,
pois isto o que aconteceu com o macaco que mexeu com a cunha, meu amigo."
E assim aqui se interrompe a primeira história-moldura. A partir daí Prudente conta a história do macaco e da cunha, a primeira fábula do livro:
Numa certa cidade, um mercador tinha mandado construir um templo num arvoredo na periferia. Todo dia o mestre-de-obras e outros artesãos partiam para a cidade ao meio-dia para o almoço. Um dia, um bando de macacos desceu sobre o templo ainda em construção. Um enorme tronco de pau-rosa, cortado por um dos carpinteiros, estava de um lado, com uma cunha de acácia inserida no alto, na fenda. Os macacos começaram a brincar nas copas das árvores, nos imponentes tetos e torres, e na pilha de madeira. Um deles, que estava destinado à derrota, subiu por pura curiosidade, em cima do tronco de pau-rosa e ali ficou divagando: "Ora, quem teve a ideia de enfiar uma cunha num lugar tão estranho?" Pegando a cunha com as duas mãos, ele começou a puxar, fazendo força, tentando soltá-la. Conseguiu; de repente a cunha escapou; as metades cortadas do pau-rosa se fecharam. Agora, você pode saber, sem que eu precise contar, o que aconteceu com os genitais do macaco presos na fenda embaixo do lugar em que a cunha tinha sido colocada.
- "Então eu lhe digo", notou Prudente, "qualquer pessoa que tenha miolos cuida apenas de seus próprios assuntos."
A moral dessa história, como as outras do Panchatranta, não se refere à ética em benefício das pessoas em geral, mas ao proveito que cada um pode obter conforme o seu
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A moral das histórias
continua vigente nesta época
de globalização. Por elas,
podemos entender o que se
passa na virada do milênio
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comportamento - como aliás já se vê nas elucubrações do príncipe-mercador cuja viagem está na origem de todo o livro. Dá para perceber que esse tipo de moral continua vigente, e talvez até se tenha acentuado, nesta época de globalização. Estudando essas fábulas indianas podemos entender o que se passa à nossa volta nesta virada de milênio. (No próximo sábado, observações a respeito do poeta-filósofo romano Lucrécio.)
Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance em hipertexto na Internet: O Terceiro Milênio
(http://www.pompeu.com/3milenio) e dos livros Impressos recém-lançados Globalização e Justiça Social, ensaio econômico; 2084 - O Admirável Mundo Neoliberal das Mulheres, ficção erótica, e Um Dia no Mundo, romance "globalizado" que se passa em todos os países do mundo.
Texto extraído de Caderno de Sábado
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 23-8-97
O Jornal da Tarde pertencia ao jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO"
Numa certa cidade, um mercador tinha mandado construir um templo num arvoredo na periferia. Todo dia o mestre-de-obras e outros artesãos partiam para a cidade ao meio-dia para o almoço. Um dia, um bando de macacos desceu sobre o templo ainda em construção. Um enorme tronco de pau-rosa, cortado por um dos carpinteiros, estava de um lado, com uma cunha de acácia inserida no alto, na fenda. Os macacos começaram a brincar nas copas das árvores, nos imponentes tetos e torres, e na pilha de madeira. Um deles, que estava destinado à derrota, subiu por pura curiosidade, em cima do tronco de pau-rosa e ali ficou divagando: "Ora, quem teve a ideia de enfiar uma cunha num lugar tão estranho?" Pegando a cunha com as duas mãos, ele começou a puxar, fazendo força, tentando soltá-la. Conseguiu; de repente a cunha escapou; as metades cortadas do pau-rosa se fecharam. Agora, você pode saber, sem que eu precise contar, o que aconteceu com os genitais do macaco presos na fenda embaixo do lugar em que a cunha tinha sido colocada.
- "Então eu lhe digo", notou Prudente, "qualquer pessoa que tenha miolos cuida apenas de seus próprios assuntos."
A moral dessa história, como as outras do Panchatranta, não se refere à ética em benefício das pessoas em geral, mas ao proveito que cada um pode obter conforme o seu
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A moral das histórias
continua vigente nesta época
de globalização. Por elas,
podemos entender o que se
passa na virada do milênio
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comportamento - como aliás já se vê nas elucubrações do príncipe-mercador cuja viagem está na origem de todo o livro. Dá para perceber que esse tipo de moral continua vigente, e talvez até se tenha acentuado, nesta época de globalização. Estudando essas fábulas indianas podemos entender o que se passa à nossa volta nesta virada de milênio. (No próximo sábado, observações a respeito do poeta-filósofo romano Lucrécio.)
Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance em hipertexto na Internet: O Terceiro Milênio
(http://www.pompeu.com/3milenio) e dos livros Impressos recém-lançados Globalização e Justiça Social, ensaio econômico; 2084 - O Admirável Mundo Neoliberal das Mulheres, ficção erótica, e Um Dia no Mundo, romance "globalizado" que se passa em todos os países do mundo.
Texto extraído de Caderno de Sábado
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 23-8-97
O Jornal da Tarde pertencia ao jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO"
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