sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O QUE NÃO SABEMOS (03)

          continuação da postagem anterior (02)......

                 Ele a ultrapassa por todos os lados. Como ultrapassa também a ciência. O detetive em busca de indícios, o ciumento, que arde de vontade de conhecer como o objeto de sua paixão e de suas suspeitas emprega o tempo, ilustram à sua maneira a familiaridade com aquilo que não se sabe. Como o biólogo e o físico nuclear, cada um de nós vive permanentemente em contato com o que ignora e está sempre preocupado com isso.
                  O saber dos homens não cessa de crescer jamais. Sabemos mais sobre quase tudo - não sobre tudo, sem dúvida, porque ainda há técnicas e comportamentos que se esquecem, mas sobretudo quase tudo - que nossos bisavós, que sabiam mais sobre o Universo que os humanistas da Renascença, que por sua vez sabiam mais que os juristas romanos ou os geômetras gregos. Mas o mais interessante é que o que não se sabe se abstém cuidadosamente de diminuir à medida em que incha a massa do que se sabe. Por um mecanismo digno de interesse, o que continua oculto a nossos olhos cresce ao mesmo tempo em que aumente o que é posto à luz do dia. Quanto mais se sabe das coisas, mais se ignora. Poderia dizer-se que o saber não para de levantar questões ainda não resolvidas e de gerar a ignorância.
                  Existe todo um setor do que não se sabe ao qual é proibido ligar a palavra ainda. Ao lado do que ainda  não se sabe e que se saberá talvez um dia, esconde-se com muita obstinação o que não se saberá jamais, o que jamais se poderá saber. Amanhã, não duvidemos, saberemos mais e mais sobre a Aids, sobre os buracos negros, sobre a origem da vida e dos homens, sobre o Universo, sobre o combate contra a morte, sobre tudo  que se passa no espaço e no tempo. Não saberemos jamais nada a respeito do que acontece depois da morte, nem se realmente acontece alguma coisa, a respeito do que havia antes do Universo e sobre o que haverá depois, a respeito do que está fora do espaço, do que está fora do tempo.
                                        continua na próxima postagem.......
 
Texto extraído de "CADERNO 2'
ESPECIAL * DOMINGO
Data: ANO IX NÚMERO 3.136 - DOMINGO, 10 DE SETEMBRO DE 1995
Jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO "
 
 
 

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