sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O QUE NÃO SABEMOS ( 01 )


O QUE NÃO SABEMOS

     A revista francesa ""L'Express" convidou 16 sábios para, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, responder à seguinte questão: o que não sabemos? O resultado foi um conjunto de artigos brilhantes, que, longe de fornecer ocasião para uma espécie de festa da ignorância, pintou o cenário perfeito para uma celebração do saber:  O "Caderno 2 Especial" reproduz esses artigos e conclui que existe um movimento contínuo e incansável da ignorância para o conhecimento
                                    JEAN D'ORMESSON
        Já é arriscado falar sobre o que se sabe. Desde a interrogação socrática até Jean Gabin, que canta Je sais que je ne sais rien (Sei que não sei nada), passando pela dúvida metódica de Descartes e por Montaigne e sua célebre frase Que sais-je? Que sei eu?), uma longa tradição lança sobre o saber uma sombra de suspeita. Que dizer a respeito do que não se sabe? Nada, naturalmente. Não é preciso nem mesmo falar sobre isso. "É preciso calar a respeito daquilo que não se pode falar", afirma, numa célebre fórmula, o filósofo austríaco Wittgenstein. Parece que a gaveta do que não se sabe deva ser trancada novamente antes mesmo de ser aberta. É impossível fazer qualquer registro.
          Contudo, desde seus inícios, a aventura humana não foi outra coisa senão um progresso do saber e uma invasão incansável do que não se sabe por aquilo que se sabe. O que é distingue Lucy e nossos longínquos ancestrais da África Oriental do Homo sapiens sapiens e de seu orgulhoso balbucio a não ser uma acumulação contínua de saber? A maneira da conquista dos polders sobre o mar nos Países Baixos, o saber é conquistado sobre o não-saber. A marcha da história se confunde com uma lenta vitória - que jamais terminou - do que já se sabe sobre o que ainda não se sabe.
           A palavra decisiva nesta aventura é a palavra ainda. O que hoje ainda não se sabe, se saberá amanhã. Existe um movimento contínuo e incansável da ignorância para o conhecimento. O que não se sabe cessa de ser um nada obscuro e vazio no momento em que é colocado em relação com o que já se sabe e com o que se busca. É possível falar a respeito do que não se sabe, por que a pergunta " o que é que não se sabe? " está inteiramente do lado da pesquisa - isto e, não do lado da ignorância, mas do lado do saber. É uma batalha de fronteiras. O saber e o não-saber se atraem, magnetizam-se mutuamente e a ignorância, em todas as frentes não cessa de recuar diante do progresso do saber.
                               continua na próxima postagem........

Texto extraído de CADERNO 2
ESPECIAL * DOMINGO
De " O ESTADO DE S. PAULO "
DATA: ANO IX 3.136 - DOMINGO, 10 DE SETEMBRO DE 1995

 

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