domingo, 18 de outubro de 2015

O QUE NÃO SABEMOS (02)

           continuação da postagem anterior

          A questão assim colocada é por, excelência, interdisciplinar e transdisciplinar: da Aids à astrofísica, da pré-história à arqueologia ou à economia política, o processo está em curso em todos os setores do saber. "O que é que não se sabe?" é o tipo de interrogação que atinge indiretamente todos os domínios da ciência. Na minha opinião, é por isso que Federico Mayor, diretor geral da Unesco, escolheu essa pergunta. Ele atendeu a sugestão de Ayyam Wassef, que está na origem do projeto, para tema de seus Encontros Filosóficos da Unesco, que se realizaram recentemente, com grande sucesso, na Praça de Fontenoy, em Paris. Sob a direção de Judith Schlangwer, professora da Universidade Hebraica de Jerusalém, a revista Diogène, que tem versões paralelas em diversas línguas, publicou sob este tema um número especial. A editora Gallimard lhe consagrou um volume de sua coleção Dèconvertes, a ser lançada no final do ano. As academias de Bourdeaux, de Toulouse, de Montepellier, de Aix-Marseille, de Nice, acabam de propor aos candidatos ao bacharelado de filosofia uma pergunta que resulta com toda a evidência deste mesmo problema: "Existe um intermediário entre o saber e o ignorar?" Como tratar desse assunto? Talvez por exemplo (e não se desesperem os candidatos que escolheram outro itinerário), partindo de Platão e de Montaigne, que, cada qual à sua maneira, lançam uma ponte entre os dois continentes isolados do saber e do não-saber. Platão, sustentando que o que não se sabe, na realidade, já se sabe e confiando à "maiêutica" o cuidado de fazer o discípulo perdido dar à luz a verdade esquecida. Montaigne, garantindo que o que já sabe não se sabe muito bem - ou talvez não se sabe absolutamente. Restabelecida assim paradoxalmente a circulação entre um saber e uma ignorância, menos distantes entre si que se poderia crer, a ciência, a bordo do frágil e possante barco da pesquisa, sempre açoitado pelas ondas, progride, a meio caminho entre as terras conquistadas do saber e a "terra incógnita" da ignorância, sobre as águas intermediárias do que ainda não se sabe. E, na Grã-Bretanha no Canadá, nos Estados Unidos, no Brasil, um pouco em toda a parte no mundo, pesquisadores e jornalistas manifestam curiosidade e interesse por este exercício filosófico que ultrapassa a filosofia.
                         continua na próxima postagem.....

Extraído de CADERNO 2
ESPECIAL * DOMINGO
ANO IX NÚMERO 3.136 - DOMINGO, 10 DE SETEMBRO DE 1995
Jornal: "O ESTADO DE S.PAULO"


 

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