Antologia mostra o que Hemingway sabia fazer melhor
americano melhor exercitou sua maestria: o conto
*Por J.C. Ismael
Já é difícil escrever ficção, e ainda me pedem para explicar o sentido. Isso pode tirar o emprego dos resenhistas. Se eles conseguem dar conta do recado, por que eu iria me meter? Leia o que escrevo só pelo prazer da leitura: qualquer outra coisa que vier a encontrar será medida daquilo que você trouxe a ela. " Essas palavras são de um trecho da entrevista que a célebre Paris Review fez com Ernest Hemingway, em maio de 1954 num café de Madri. Hemingway não gostava de dar entrevista porque as perguntas eram quase sempre as mesmas e mais ligadas à sua agitada vida pessoal que à sua produção literária. A observação acima, por exemplo, decorreu de uma das perguntas que mais o irritavam: se existiam "símbolos" em sua obra. Só quem não a conhece faria uma pergunta dessa. Alegorias, símbolos ou metáforas não fazem parte do seu universo ficcional: realista clássico, Hemingway escreve só o que sabe. Sobre o que não sabe ou gostaria de saber, silencia. Jamais usa a literatura para sofisticadas especulações sobre o mistério da natureza humana: apenas descreve-a com toda a singeleza e despojamento possíveis. Essa é, para ele, a suprema missão do escritor.
Hemingway é um artesão com extraordinária sensibilidade para o ofício de contar histórias como o foram poucos escritores do seu tempo. Brigou muito com Gertrude Stein, inconformada com o fato de que ele não se preocupa em fazer o leitor "pensar", e apesar de ter feito uma tímida "concessão" às exigências da olímpica matrona usando a técnica do stream-of-consciousness em As Neves do Kilimanjaro, despojar a narrativa de qualquer outra "sedução" que não fosse ela própria constituiu para ele o objetivo supremo da sua arte.
continua na próxima postagem.....
Texto extraído do "CADERNO DE SÁBADO"
Jornal da Tarde
Data: Sábado -24-5-97
Jornal da Tarde
pertencia
ao jornal:
"O ESTADO DE SÃO PAULO"
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