domingo, 5 de julho de 2015

O PERSONAGEM GARCÍA MÁRQUEZ (03)

                    continuação....
      García Márquez narra também "seu primeiro êxito literário". Ainda não escrevendo, nem sabia: não passava dos 4 ou 5 anos, quando um amigo e companheiro de partidas de xadrez (intermináveis) de seu avô, um belga que lutara na 1ª Guerra Mundial, morre - na verdade, se suicida, depois de assistir ao filme Sem novidade no Front. Depois de ver o cadáver, "nu, teso e retorcido", e sentir o odor do cianureto, avô e menino deixam a casa. Gabo diz: "O Belga já não voltará a jogar xadrez." Foi uma idéia fácil, mas meu avô a contou em família como uma ocorrência genial. As mulheres a divulgaram com tanto entusiasmo que durante algum tempo fugia das visitas com o temor de que a contassem na minha frente e me obrigassem a repetí-la".
      De sua infância à sua juventude, passando por noitadas e discussões, García Márques vai, pouco a pouco, declarando suas preferências e convicções literárias. O primeiro autor que cita é William Faulkner. Conta suas dificuldades em ler Dom Quixote, de Cervantes, até que pudesse compreender, para se apaixonar. Também passa por James Joyce (Ulisses), Thomas Mann (A Montanha Mágica) e por vários autores latinos-americanos. Cita também autores de obras ficcionais, como  Freud. Mas o comentário mais engraçado ele dedica ao companheiro de Karl Marx: "Nunca entendi por que A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, de Frederic Engels, era estudado nas áridas tardes de economia política e não nas aulas de literatura, como a epopéia de uma bela aventura humana."
       Ele, que se orgulha de sempre ter ganhado a vida escrevendo, seja como literato, seja como jornalista, proclama em dado momento a semelhança entre a reportagem e o romance ("filhos de uma mesma mãe")-, para depois afirmar que romance e conto são gêneros absolutamente diferentes, e que acha o último superior ao outro.
                            continua na próxima postagem.......
Texto extraído de
Cultura - Caderno 2
Domingo, 20 de outubro de 2002. Nº 1.147 - Ano 22
"O ESTADO DE SÃO PAULO"



 

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