sábado, 20 de dezembro de 2014

O cérebro humano, mais um artista do que um administrador (04)

continuação....
       A idéia de que a linguagem comunica na base de um sim ou não nos leva à idéia de que a linguagem não apenas sintetiza, mas viabiliza, realiza conteúdos, e ambas essas operações são entendidas como mediações de uma gramática.
 
                                                  A linguagem é forma
                                    essencial da experiência. O melhor dela,
                                    sua criatividade, está em sua reação com universo
 
Isso, que tem lógica, não deixa de conter um mito. Porque reforça a tese de uma autonomia da linguagem, defendida por boa parte da linguística e da teoria da comunicação. Del Nero, ao contrário, parte da idéia de que a linguagem é a forma do inteiro processo mental, efetivada entre a dinâmica do cérebro e da cultura. A gramática, portanto, não viria ao caso para aquilo que Del Nero tem em vista, ou seja, a possibilidade de fazer, da compreensão da mente, uma forma de intervenção humana que vise a tirar o homem dos mitos em que ele tem metido para desgraçar a sua vida, e a dos outros. Se a estrutura ou a gramática de uma língua fosse relevante para se viabilizar a felicidade, nós já teríamos percebido isso há muito tempo. Por certo, existe uma criatividade das línguas. Mas que só vale para as línguas. Não resolve problemas. Não nos faz compreender a vida. Em O Sítio da Mente, a linguagem é forma essencial da experiência. O melhor dela, sua criatividade, está em sua "química" reação com o universo, e isto é mediado pela ação do cérebro. Não que cérebro seja "bonzinho"; ele depende da alimentação que tenha, dos conteúdos que lhe são oferecidos. Dependendo do caso, nós podemos viciá-lo, danificá-lo, e a despeito de usarmos a mais "sofisticada" das linguagens. O cérebro terá, portanto, certa dimensão ética. Seu desejo é entender, multiplicar, criar. É verdade que ele tem o gênio da administração. No entanto, ele é mais um artista do que um operador. Repetir é uma de suas possibilidades. Mas sua vocação é inventar. Por isso é que Del Nero insiste em que o trabalho do cérebro não é ficar distinguindo o certo do errado. Não. O cérebro responde a situações do mundo, abrindo-nos um painel de constelações, de possibilidades, ou, como diz Del Nero, abrindo-nos para as infinitas formas do "talvez", as únicas que podem fazer predições e trazer de fato novidades. E essas novidades não são frescuras de futurista. São essenciais para a saúde. A vida mental é um rio de hipóteses. Não existiriam hábitos perfeitos. Toda repetição se deixa atravessar por um "talvez". E boa parte dos males de  nosso tempo estaria na ocultação desse princípio, e na violência que se ostenta contra ele. É ler o livro para ver.

Antônio Medina Rodrigues é professor de língua e literatura grega na USP

Texto extraído do "Jornal da Tarde" de Sábado - 31-5-97
Jornal da Tarde pertencia ao jornal " O ESTADO DE SÃO PAULO"

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