domingo, 14 de dezembro de 2014

O CÉREBRO HUMANO, MAIS UM ARTISTA DO QUE UM ADMINISTRADOR (02)

continuação de 01

          O conceito de mente, contudo, parece ter o destino dos conceitos de futebol ou do sexo: todos julgam entender um pouco. Porque a mente nos é íntima. Nem precisamos apalpá-la. Ela não se aumenta nunca. Quem pode saber dela melhor do que nós? O que Del Nero nos mostra , em relação a tal ingenuidade, é que a mente só nos é íntima naquilo que ela expede, concede como nossa intimidade. De resto, não temos intimidade com ela, somos leigos. E aí se define também o campo do transcendental.
            O Sítio da Mente é um livro que procura mostrar a interdependência entre nossos processos mentais e o trabalho cerebral. Mas não fica por aí. Assim como a mente não é nossa cúmplice, o cérebro também não é um órgão terceiro e cinzento. A revelação dessas duas coisas - cérebro e mente - implica mil outras correlações.
             Del Nero não é só psiquiatra. É também pesquisador e coordenador do grupo de ciência cognitiva da USP. Como os processos mentais envolvem toda nossa vida inteligente, e são, de certa forma, envolvidos também por ela, Del Nero orienta seu trabalho no sentido de uma patologia social, pois o cérebro pode também começar alhures, algo fora de si próprio. Estamos diante, portanto, de uma engenhosa reflexão terapêutica. E a receita final aponta para a mudança da cultura. A cultura é patogênica. Primeiro, porque mente. Segundo, porque afasta a vida. E não me venham dizer que aí temos mais um Simão Bacamarte! O "alienista" de Machado, a despeito da clínica, inspirava-se em discursos, oferecidos pelo livre jogo da quimera. E Del Nero, ao contrário, traz documentação e senso de laboratório.  O que não quer dizer que só se aferre à biologia. O cérebro, para ele, não é ponto final, não é profissão de fé fisiologista. Ao contrário, ele seria um elo, talvez o mais importante, por ser o mais maltratado, o mais desconhecido.
              Se as nossas superstições, transformadas em crenças, danificam nossa vida, é evidente que alguma coisa nisso caberá à linguagem. Por certo, não apenas a ela. Porque o problema não é só formal, nem se reduz a semantismos ou mitos. Mas, de qualquer forma, uma boa parte de nossos infortúnios vem das crenças a que nossa língua dá sentido. Mas não adianta corrigir a linguagem. É preciso entender os seus limites, e corrigir as coisas. A menos que entendamos a linguagem como a própria experiência. Para que isso aconteça é preciso entender a relação entre os processos mentais e os cerebrais. A linguagem seria essa relação.
                                                              continua na próxima postagem.....

Texto extraído de "Caderno de Sábado"
De "JORNAL DA TARDE"
Data: Sábado - 31-5-97
Jornal pertencia ao "O ESTADO DE SÃO PAULO"

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