domingo, 14 de dezembro de 2014

O cérebro humano, mais um artista do que um administrador (01)

                                                           Caderno de
                                                          S Á B A D O
Jornal da Tarde - Sábado - 31-5-97

                 Em "O Sítio da Mente", psiquiatra discute as características do panorama mental com o auxílio da neurologia. Para ele, a vocação do pensamento é inventar, abrindo infinitas formas de "talvez", as únicas que podem fazer predições e trazer novidades de fato
 
Por Antonio Medina Rodrigues
 
        O Sítio da Mente, de Henrique Schutzer Del Nero (editora Collegium Cognitio, 512 págs., R$ 40,00), é livro aprofundado e poderoso, mas um pouco eîron.
Os gregos chamavam eîron à personagem que escondia as forças. Não falo da expressão do autor, que é claríssima. Nem da paciência de explicar, e sobretudo de alertar. Não falo da simplicidade, que faz o livro estar à altura de qualquer mortal. Falo de uma coisa que todos já devem ter reparado, e que esse livro analise de maneira exemplar. É que, num certo sentido, não entramos de frente, mas de costas no futuro. Pois, nada sabemos, e o acaso não  nos deixa saber nada de antemão. De qualquer forma, nos preparamos. Olhamos para o futuro com ansiedade ou otimismo, dependendo da hora. A ansiedade é um velho e estranho volume, uma espécie de órgão indesejável. Querem alguns que sejam natural. E o otimismo são entusiasmos, colorações, que vão pautando nossa ação.
        Ao contrário da ansiedade, o otimismo não é conteúdo. É um acompanhamento melódico da vida. Como tal , ele nos tira de nós mesmos, para nos devolver a nós mesmos com um pouco mais de confiança. Ele faz com que nossas teorias (teorias sobre nós) acabem dançando no compasso que quisermos. O otimismo é uma celebração de nossas crenças. Ora, essas teorias, que cada um de nós produz para viver melhor, costumam ser poéticas, ou seja, não têm nenhum fundamento fora de si próprias. Estariam certas? Sim, certas na medida em que espantarem a ansiedade. Certas, mas por pragmatismo interior. Dessas crenças participam a superstição, autopersuasão, paixão de si, a crendice, a loteria, a quimera, o consumismo, etc. Todas essas coisas, ao fim e ao cabo, dizem respeito a nosso panorama mental. Não constituem sonhos. Representam decisões interiores de ver a vida dessa e não de outra maneira. Esse é o conteúdo. Traduzem principalmente uma ilusão da linguagem.
         Por isso é que o livro de Del Nero nos faz uma pergunta delicada, que esconde seu veneno: que tal sabermos um pouco do que a neurologia diz sobre esse assunto? É uma pergunta socrática, ou seja, é uma pergunta que vai ao fundamento das coisas. Pois, de que fato, se quisermos conhecer alguma coisa devemos perguntar a quem entenda.
                                                                    continua na próxima postagem.....
 
 
 
 

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