Em resumo, o intérprete ideal - como o ouvinte ideal - seria para o nosso autor aquele que está "disposto a amar". E que diante de qualquer manifestação artística "sabe se despojar das verdade adquiridas, dos preconceitos acumulados dos ídolos de toda espécie" e pôr-se em estado de receptividade, "livre dos preconceitos que adquiriu por tradição e por veneração e não pela exata compreensão do passado".
Foi esta atitude crítica aberta e apaixonada que caracterizou Mário de Andrade, manifestando-se no convívio, na correspondência, na obra, na sala de aula. Tendo construído uma vida admirável de escritor, jamais se envaideceu do seu ofício. Tendo passado a vida estudando, se proclama um homem sem memória, que não guardou nem a milésima parte do que aprendeu. "Eu sou o tipo do sujeito que não sabe", exclama com orgulho já no fim da vida.
-Louvemos, como ele faz, essa "ignorância transcendente do mundo humano, suas leis e suas normas", que o afastou da erudição, para conservá-lo na "deliciosa sensação criadora", no "mundo" de perene descobrimentos e invenção em que viveu. É com essa disposição de espírito, que devemos ler as anotações de mocidade que Flávia Camargo Toni organizou com afetuosa dedicação.
Gilda de Mello e Souza é professora
aposentada da USP e autora de "O espírito das roupas",
editora Cia. das Letras
Texto extraído de "Caderno de Sábado"
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 6-1-96
Jornal da Tarde
pertencia ao jornal
"O ESTADO DE SÃO PAULO
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