sábado, 2 de julho de 2016

MÁRIO DE ANDRADE E A MÚSICA (14)

           continuação.....

     É natural que concebendo a obra-de-arte como o lugar em que a unidade do ser se refaz, ele dê primazia à obra colocando-a acima da fragilidade e indeterminação do criador. É natural que considere a obra-de-arte mais importante que o criador.
     Uma vez concluída e posta em circulação, a obra se desliga de quem a gerou, como o filho emancipado se desliga do pai. Mas para que a mensagem de que ela é portadora se atualize e se  comunique, é preciso que entre ela e o ouvinte se interponha um intermediário, a figura nova do intérprete. - A interferência indispensável do intérprete não irá instalar, no cerne da manifestação musical, um elemento perturbador, uma discordância entre a intenção do criador e a verdade do executante? Pois a interpretação pode ser de dois tipos: passiva, e neste caso aderir à visão iniciador do criador, e traidora, projetando na obra o temperamento e a criatividade do executante. Qual a interpretação mais aconselhável? - Ambas, responde nosso autor, pois as duas se justificam, se intérprete é sincero e tem, realmente, o que dizer. "O papel do intérprete é nobilíssimo e suas traições relativas", conclui.
     Mário de Andrade é bem mais reticente diante de uma terceira hipótese, onde talvez aflore um resquício de sua concepção antipersonalista da Arte - a do criador que se institui intérprete da própria obra. Segundo ele, o conhecimento mais profundo da obra, ao contrário do que se supõe - não representa uma vantagem. Na medida em que o criador conhece a gênese do trabalho, tende a recriá-lo desde a formação, sublinhando pormenores inúteis, intenções que só ele valoriza e esquecendo que a obra deve ser interpretada como uma síntese.
                                 continua na próxima postagem......
 
Texto extraído de Caderno de Sábado
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 6-1-96
Jornal da Tarde
pertencia ao jornal
"O ESTADO DE SÃO PAULO"
 

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