São quatro as entidades que compõem a manifestação musical: o criador, a obra-de-arte, o intérprete e o ouvinte. Ao contrário do que se poderia imaginar - tratando-se de uma Estética do criador - essas entidades não se relacionam de acordo com uma ordem decrescente de importância, mas são praticamente equivalentes. O criador, por exemplo, não é concebido como o ser excepcional que aparece na imagem do senso comum. É um homem como os outros, que se distingue da mediania antes por carência que por excesso de força. De certo modo representa uma forma enfraquecida de humanidade, pois sendo tímido é menos vital e afirmativo; sendo sonhador, é menos integrado à vida prática. É sobretudo um ser desarmônico, que não possuindo a unidade de corpo e espírito do homem comum, vive numa espécie de desdobramento contínuo da personalidade, numa superposição de duas vidas distintas, ou melhor, diferentes. E só atinge a integridade vital no domínio do espírito, na "permanente dádiva de si mesmo" que realiza através da obra-de-arte.
Quem quer que tenha familiaridade com a obra de Mário de Andrade, que conheça bem a correspondência, sobretudo as cartas mais íntimas em que esmiúça com volúpia os meandros de sua personalidade, reconhece nessa caracterização do criador a projeção de sua própria realidade.
"Eu sou um ser como que dotado de duas vidas simultâneas, como os seres dotados de dois estômagos" - declara a Oneyda Alvarenga - " O que mais me estranha é que não há consecutividade nessas duas vidas - o que seria mais ou menos comum (...). Há completa disparidade, uma sofrida e a outra incapaz de qualquer espécie de dor (...). A verdade é que são vidas dispares, que não buscam entre si a menor espécie de harmonia, incapazes de se amelhorarem um pelo auxílio da outra".
continua da próxima postagem.....
Texto extraído de: "Caderno de Sábado"
Jornal da Tarde
Data: Sábado - 6-196
Jornal da Tarde
Pertencia ao jornal
"O ESTADO DE SÃO PAULO"
"Eu sou um ser como que dotado de duas vidas simultâneas, como os seres dotados de dois estômagos" - declara a Oneyda Alvarenga - " O que mais me estranha é que não há consecutividade nessas duas vidas - o que seria mais ou menos comum (...). Há completa disparidade, uma sofrida e a outra incapaz de qualquer espécie de dor (...). A verdade é que são vidas dispares, que não buscam entre si a menor espécie de harmonia, incapazes de se amelhorarem um pelo auxílio da outra".
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Texto extraído de: "Caderno de Sábado"
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