E no entanto encontra-se na mesma disposição de ânimo em que, bem mais tarde, irá retratar o jovem compositor de O Banquete: sente-se sozinho. Vê com melancolia que escreveu no vago, tentou no vago, se defendeu no vago, estudou no vago e agora se defronta com a obra-de-arte que criou - e ama acima de tudo - sem poder avalia-la, porque os elementos de que se serviu não são garantidos pela tradição. E se ainda conserva a convicção das suas ideias, já não tem nenhuma certeza das realizações em que se transcreveu. - Onde encontrar apoio?
Imaginemos que nesse momento de perplexidade e solidão, tenha ocorrido a nosso autor buscar refúgio na Música. Desde cedo, por deformação de ofício habituou-se a pensar as várias manifestações artísticas de acordo com a ordenada sistematização musical. Tem um temperamento socrático, gosta muito de ensinar e quando leciona acha fácil dialogar com os alunos consigo mesmo, recapitulando as incertezas, reformulando os conceitos, enfrentando os riscos inevitáveis da afirmação e da dúvida. Dar aula não difere muito de escrever cartas, sobretudo quando já se habituou a varar a noite se correspondendo com os amigos, oferecendo generosamente aos mais jovens a sua experiência. A elaboração do compêndio, que agora se impôs, veio reafirmar nele o senso dos problemas, a convicção de que não se ensina Música, se ensina Arte. E para quem viveu desde moço na fronteira das artes é sempre possível, levando em conta a capilaridade das questões, deslizar insensivelmente de um domínio para outro. Ele mesmo já utilizou em escritos teóricos anteriores - no "Prefácio Interessantíssimo" e em A Escrava que não era Isaura - conceitos musicais bem fixados como "harmonismo", "polifonismo", "sincronismo" para caracterizar certos processos correntes em alguns poetas modernos.
continua na próxima postagem...
Texto extraído de "Caderno de Sábado"
"JORNAL DA TARDE"
Data: Sábado - 6-1-96
Jornal da Tarde
pertencia ao jornal
"O ESTADO DE SÃO PAULO"
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