EM DEUS, MEU CRIADOR(¹)
Não há cousa segura.
Tudo quanto se vê
se vai passando.
A vida não tem dura.
O bem se vai gastando.
Toda criatura
passa voando.
Em Deus, meu criador,
está todo meu bem
e esperança,
meu gosto e meu amor
e bem-aventurança.
Quem serve a tal Senhor
não faz mudança.
Contente assim, minha alma,
do doce amor de Deus
toda ferida,
o mundo deixa em calma,
buscando a outra vida,
na qual deseja ser
toda absorvida.
Do pé do sacro monte
meus olhos levantando
ao alto cume,
vi estar aberta a fonte
do verdadeiro lume,
que as trevas de meu peito
todas consume.
Correm doces licores
das grandes aberturas
do penedo.
Levantam-se os errores,
levante-se o degredo
e tira-se a amargura
do fruto azedo!
pag. 377 - 378
(¹) Iª , XIV. Numa cópia existente no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, esta poesia tem o título "Da vaidade das cousas do mundo", cf. NP,(1)
Extraído de:
POESIAS
José de Anchieta
COMISSÃO DO IV CENTENÁRIO DA CIDADE SÃO PAULO
Serviço de Comemorações Culturais
Manuscrito do Séc. XVI, em português, castelhano, latim e tupi.
Transcrições, traduções e notas
de
M. DE L. DE PAULA MARTINS
Boletins IV - Museu Paulista - Documentos Linguísticos, 4
São Paulo, maio de 1954.
Nenhum comentário:
Postar um comentário