JORNAL DA TARDE Caderno de Sábado Sábado - 16-9-95
Farpas entre Eça e Machado
Por A. Campos Matos
Machado de Assis, romancista e contista brasileiro (1839-1908), autodidata, autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), um dos clássicos da literatura do Brasil, escreveu extenso artigo crítico sobre O Crime do Padre Amaro e sobre Primo Basílio, publicado a 16 de abril de 1878 na revista Cruzeiro e reproduzido em 1881 no livro Crítica. Deste artigo resultaria grande repercussão e polêmica, tornando Eça conhecido nos meios literários do Brasil como romancista. Daqui resultou também um segundo escrito de Machado de Assis, publicado na mesma revista (30-4-1878), defendendo-se dos que no Brasil atacavam a sua severidade crítica.
No essencial, a crítica de Machado de Assis aborda os temas seguintes: considera Eça um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assomoiri; O Crime do Padre Amaro é para ele imitação do romance de Zola, La Faute de L'Abbé Mouret, embora não contestando a originalidade de Eça, atribui o maior atrativo do romance e o seu sucesso à temática do "pomo defeso".
Quanto ao Primo Basílio, o seu sucesso ainda maior estava também no "requinte de certos lances, que não destoam do paladar público". Luisa é para ele um títere, acrescentando. "Não quero dizer que não tenha nervos e músculos, não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos, menos ainda consciência." Para Machado, " A catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita e nada mais", ou seja, não resulta de condições intrínsecas à própria Luisa. "Para que Luisa me atraia e me prenda", diz Machado, "é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesmo." O mais grave, porém, o "gravíssimo", para Machado, é o predomínio, da "sensação física" no realismo queirosiano, a crueza dos episódios, que é a "medula da composição", o que resultaria das preocupações de escola. Também a excessiva abundância do "acessório" e a presença de um erotismo sem restrições merecem a sua reprovação.
Para Machado, o realismo de Eça é uma "doutrina caduca, embora no verdor dos anos. Esse messianismo literário literário não tem a força da universidade nem da vitalidade, traz consigo a decrepitude". Finalmente, Machado conclui com dizer: "O seu dom de observação, aliás pujente, é complacente em demasia, sobretudo, é exterior, e superficial".
Em carta de Newcastle de 29-6-1878. Eça responde a Machado de Assis: "Apesar de me ser em geral adverso, quase severo, e de ser inspirado por uma hostilidade quase partidária à Escola Realista - esse artigo todavia, pela sua elevação e pelo talento com que está feito honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade." Eça reserva-se então para melhor oportunidade, para quando conhecesse tudo o que Machado escrevera sobre os seus livros, para discutir com ele "a defesa da Escola que eles representam e que eu considero como um elevado fator de progresso moral da sociedade moderna".
Dois anos depois, na versão de 1880 do Crime do Padre Amaro, Eça defende-se da acusação de ter imitado Zola, ainda que não refira o nome de Machado de Assis, no prólogo a essa edição: "Com o conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou uma má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama de uma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de cléricos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa. "Eça parece, no entanto, ter atendido nesta versão às críticas do escritor brasileiro, remodelando certos pontos fundamentais que este criticara.
Verbete extraído do Dicionário de Eça de Queiroz, organizado por A. Campos Matos, Editorial Caminho, Portugal. O autor é arquiteto e estudioso da obra de Eça de Queiroz
Émile Zola: para Machado de Assis, O Crime do Padre Amaro é um plágio do romance La Faute de L'Abbé Mouret, do escritor francês
NOTA: Texto retirado de: Jornal da Tarde - Caderno de Sábado do dia -Sábado, 16- 9-95.
Jornal da Tarde pertencia ao "O Estado de São Paulo"
OBSERVAÇÃO: É interessante ver essas discussões entre dois escritores famosos antigos.
Observa-se que, mesmo entre eles haviam divergências de opinião a respeito da escola literária que estavam vivendo e que pertenciam: " Escola Realista".
Eu, particularmente gosto ler isso, em outros termos: me divirto......lendo...
Machado de Assis também escrevia poesias:
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e verei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
pag. 309
Machado de Assis
Do livro: MACHADO DE ASSIS
Coletânia Escritores Brasileiros
Antologia & Estudos
Autores: vários
Editora Ática - 1982 -
Quanto ao Primo Basílio, o seu sucesso ainda maior estava também no "requinte de certos lances, que não destoam do paladar público". Luisa é para ele um títere, acrescentando. "Não quero dizer que não tenha nervos e músculos, não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos, menos ainda consciência." Para Machado, " A catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita e nada mais", ou seja, não resulta de condições intrínsecas à própria Luisa. "Para que Luisa me atraia e me prenda", diz Machado, "é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesmo." O mais grave, porém, o "gravíssimo", para Machado, é o predomínio, da "sensação física" no realismo queirosiano, a crueza dos episódios, que é a "medula da composição", o que resultaria das preocupações de escola. Também a excessiva abundância do "acessório" e a presença de um erotismo sem restrições merecem a sua reprovação.
Para Machado, o realismo de Eça é uma "doutrina caduca, embora no verdor dos anos. Esse messianismo literário literário não tem a força da universidade nem da vitalidade, traz consigo a decrepitude". Finalmente, Machado conclui com dizer: "O seu dom de observação, aliás pujente, é complacente em demasia, sobretudo, é exterior, e superficial".
Em carta de Newcastle de 29-6-1878. Eça responde a Machado de Assis: "Apesar de me ser em geral adverso, quase severo, e de ser inspirado por uma hostilidade quase partidária à Escola Realista - esse artigo todavia, pela sua elevação e pelo talento com que está feito honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade." Eça reserva-se então para melhor oportunidade, para quando conhecesse tudo o que Machado escrevera sobre os seus livros, para discutir com ele "a defesa da Escola que eles representam e que eu considero como um elevado fator de progresso moral da sociedade moderna".
Dois anos depois, na versão de 1880 do Crime do Padre Amaro, Eça defende-se da acusação de ter imitado Zola, ainda que não refira o nome de Machado de Assis, no prólogo a essa edição: "Com o conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou uma má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama de uma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de cléricos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa. "Eça parece, no entanto, ter atendido nesta versão às críticas do escritor brasileiro, remodelando certos pontos fundamentais que este criticara.
Verbete extraído do Dicionário de Eça de Queiroz, organizado por A. Campos Matos, Editorial Caminho, Portugal. O autor é arquiteto e estudioso da obra de Eça de Queiroz
Émile Zola: para Machado de Assis, O Crime do Padre Amaro é um plágio do romance La Faute de L'Abbé Mouret, do escritor francês
NOTA: Texto retirado de: Jornal da Tarde - Caderno de Sábado do dia -Sábado, 16- 9-95.
Jornal da Tarde pertencia ao "O Estado de São Paulo"
OBSERVAÇÃO: É interessante ver essas discussões entre dois escritores famosos antigos.
Observa-se que, mesmo entre eles haviam divergências de opinião a respeito da escola literária que estavam vivendo e que pertenciam: " Escola Realista".
Eu, particularmente gosto ler isso, em outros termos: me divirto......lendo...
Machado de Assis também escrevia poesias:
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e verei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
pag. 309
Machado de Assis
Do livro: MACHADO DE ASSIS
Coletânia Escritores Brasileiros
Antologia & Estudos
Autores: vários
Editora Ática - 1982 -
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