NOITE DE INVERNO
(Francisca Júlia)
Nunca vi noite com esta agora:
Ai! como é negra, como é sombria...
Fechai as portas à ventania
Que vem de fora.
Passa a rajada cortante e fria;
Correm de brumas compridas levas;
Que noite escura! Brumas e trevas...
Ave, Maria!
Inquiro as sombras, o ouvido aguço.
E ouço, medrosa, de quando em quando,
Um como choro trêmulo e brando,
Como um soluço.
Como é pungente pensar que um bando
De pobrezinhas crianças nuas
Corre nest'hora ruas e ruas
Choramingando!
E eu tenho leitos, boas flanelas,
Fogão aceso, carne em trassalhos:
Ai! se eu pudesse dar agasalhos
A todas elas!
E tenho sustos, o frio corta;
Quero as janelas muito fechadas;
Vejo fantasmas, ouço pancadas
Ferindo a porta.
Gênios noturnos em negro bando,
Calmos e tristes sob as rajadas,
Andam, decerto, pelas estradas
Sonambulando.
(Esfinges)
pag. 144 e 145
Vocabulário:
(Do próprio livro)
Trassalho - A autora empregou tressalho, palavra não dicionarizada. Trassalho ou tassalho: pedaço, naco. Carne em trassalho: carne em pedaços, fatia.
Poesia extraída do livro: Língua e Literatura Brasileira
(Língua Portuguesa e Literatura
Luso-Brasileira)
Editora F.T.D. S/A
Nenhum comentário:
Postar um comentário