sábado, 18 de outubro de 2014
AO PROFESSOR COM CARINHO (02)
continuação....
Fora, fulgia o sol. A manhã era calma.
Sorrindo, a natureza abria a sua alma
repleta de alegrias e cheia de esplendores.
Pela janela aberta, entrava o hálito das flores;
em toda a atmosfera azul lavada, fina,
ressoava baixinho, assim como em surdina,
um canto celestial, harmonioso e suave,
anjos tocando, em harpa, alguma canção de ave.
Nisto ergueu-se um aluno, um pândego, um peralta,
fabricou de um jornal um chapéu de copa alta.
e bem devagarinho (oh! que ideia travessa)
chegou-se ao mestre... zás! enfiou-lhe na cabeça.
E rápido se foi de novo ao seu lugar.
O mestre nem abriu o sonolento olhar.
E àquele aspecto vil de truão, de improviso,
rebentou pela aula estardalhante riso.
De súbito, surgiu o diretor, na aula...
Demudou-se-lhe o gesto, estremeceu a fala.
quando ele, transformando a sua mansidão de boi
em fúria de leão, nos perguntou: "Quem foi?
"Quem foi esse vilão que fez tal brejeirice,
"sem respeito nenhum às cãs desta velhice?
"Vamos lá! Sede leais, verdadeiros e francos.
"dizei: quem ofendeu estes cabelos brancos?"
Mas ninguém denunciou da brincadeira o autor!
Como um truão dormia o velho professor!
O diretor, então, chegou-se junto à mesa...
Via-se-lhe no rosto, o incômodo, a surpresa,
de que o sono do mestre assim se prolongasse.
Curvou-se meigamente e levantou-se a face.
Mas recuou tremendo, aterrado, absorto,
aniquilado e mudo..... O Mestre estava morto.
pag. 214/215/216
Poesia extraída do livro "Língua e Literatura Brasileira"
Língua Portuguesa-volume 01
Floriano Tescarolo
Gilio Giacomozzi
Editora F.T.D. S.A.
Data: São Paulo, 31 de julho de 1966 - conforme a " A guisa de apresentação"
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