domingo, 22 de junho de 2014

AS MARAVILHAS DO RIO TIETÊ

                                                      CADERNO DE
                                                        S Á B A D O

SUPLEMENTO DO JORNAL DA TARDE. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADA-
                                                                    MENTE

                                                 AS MARAVILHAS DO RIO TIETÊ

                      São Paulo está fazendo 439 anos nesta segunda-feira. Para comemorar o aniversário, resolvemos publicar uma reportagem sobre as belezas encontradas às margens do rio Tietê, um dos símbolos mais tradicionais da cidade. Não estranhe o estilo um pouco antigo: trata-se do relato de um observador atento, num cenário bucólico que inclui árvores abarrotadas de frutas, aves coloridas, onças, veados e peixes, muitos peixes, mas escrito quando São Paulo tinha apenas 229 anos. Bo viagem.
 
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   (Relato do sertanista Manoel Cardoso de Abreu pra o Marques de Pombal, datado de 1783.)
 
                         É o rio Tietê bastante dilatado, composto de matas frondosas, de muitas capoeiras, saltos e juntamento de ilhas. É muito fértil de caça, pois tem com abundância antas, veados e onças pintadas; tem macacos de quatro qualidades, e uns têm o nome de bugios, de cor avermelhada. Outros de micos, com a cor tocada a preto, outros de saás, com a propriedade destes e somente diferentes no tamanho, para mais pequenos, e outros, finalmente, denominados monos, muito maiores do que os outros e de cor branca.
                            Os pássaros são inumeráveis e de diversas qualidades. As araras, umas são vermelhas, com penas azuis nas asas e rabo, e se chamam araras-pirangas, e outras, de cor amarela, com asas e rabo semelhantes àquelas, se chamam canindés. - Os papagaios são juruguás, maitacas, araguais, maracanãs, nhendaias, jirivas e sabiaci, os quais se matam e se apanham facilmente nos barreiros quando estão a comer barro. - Os jacus são de duas qualidades; a uns se chamam jacutingas e a outros jacucacas.  Os jacutingas são do tamanho de galinha e pintados de preto e branco e os outros são mais pequenos, de cor parda, e têm um papo vermelho, à maneira do peru. - O macuco é ave terrestre, de cor cinzenta, sem rabo, com o tamanho e feitio de galinha. - O inhambuaçu é próprio a estas, porém mais pequeno no tamanho. - Os patos são em tudo semelhantes aos domésticos. - Os biguás são mais pequenos e diferentes no bico, por ser ponteagudo. - Os juiuíus são uns pássaros brancos e quase do tamanho de um homem, cuja a carne não se come; a pele do pescoço serve para a perna de qualquer homem, o bico tem mais de um palmo de comprido e tão forte que, com uma bicada, vara uma tábua de grossura ordinária.
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                              Produzem as margens deste rio muitas frutas silvestres, de que se utilizam os navegantes; tem duas qualidades de marmelos, que são frutas redondas à semelhança da laranja, com a carne de dentro preta, porém no gosto quase imita o doce marmelo; tem a jaboticaba, fruta muito singular no gosto e de saudável remédio  as suas cascas para hemorroidas, desfeitas em ajudas; tem uracrupari, que é menos má, gostosa; o nhandipapo, que é quase do tamanho e feitio do limão doce. O pacapeúva, é fruta redonda e mais pequena do que a jaboticaba; o sipotuá é uma fruta vermelha , e redonda, quase do tamanho da laranja; os itais são umas frutas compridas à maneira de vagens de feijão, com a casca dura que é preciso quebrar-se para comer, e sustentam muito quando misturados com mel de abelha, que é também abundantíssimo.
                              
CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM.....

DO JORNAL DA TARDE - CADERNO DE SÁBADO -
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PÁGINA 01
Data: 23-1-1993
(Relato do sertanista Manoel Cardoso de Abreu para o Marquês de Pombal, datado de 1783.) 
Jornal da Tarde pertencia ao Jornal " O Estado de São Paulo "

 

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